Jesus o Deus Humano

Introdução

Sempre tive o hábito de parafrasear escritos e imitar pessoas. Parafrasear é escrever o mesmo texto de forma diferente, mas mantendo o sentido, assim como imitar é fingir ser certa pessoa através de sua fala e seus gestos. Ambos têm de ser o mais próximo da realidade. É difícil parafrasear ou imitar sem distorcer ou ser grotesco. Antes de discorrer sobre a árdua tarefa de unificar os evangelhos que relatam a vida de Cristo em uma biografia unificada, preciso contar um pouco do pano de fundo de como isso foi feito e de quem fez.

Desde minha adolescência tive uma admiração muito forte pelo que Cristo fez e foi. Lia muito a Bíblia, principalmente os quatro evangelhos. Recordo-me quando visitava a casa de minha vó no interior de São Paulo. A casa era uma tapera, rebocada com barro. Fogão a lenha, chão de terra socada. Não havia luz elétrica, mas lamparina a querosene. O banheiro era uma casinha de madeira no quintal com uma argola pra gente se segurar enquanto acocorado. A água tinha que ser tirada com um balde, puxada por sarilho para fora de um poço. Não era raro virem sapos nos baldes de água. Tempos difíceis, mas saudosos. Foi lá que aprendi a linguagem de Guimarães Rosa e até ensaiei escrever uns poemas com a idêntica proposta: o universal parte do local, salpicando os escritos com pepitas, aforismos de sabedoria.

À noite, após tomar um banho de “corgo”, comia carne de porco na lata cheia de gordura. Uma delícia! Depois ia pra cama e lia por horas seguidas os evangelhos à luz bruxuleante da lamparina. Ficava encantando, experimentava “o pasmo essencial”.

Morei lá durante uns 7 meses e vivia como um capiau. Depois, voltei para Santos, onde meus pais moram– num barraco de madeira cheio de ratos. Éramos muito pobres. Meu pai era pedreiro e trabalhava fazendo “bicos” (pequenos trabalhos). Eu era seu servente. Íamos para as obras de bicicleta e eu ia sentado no cano, fingindo que estava dirigindo. Comíamos siri que pegávamos na areia da praia e caranguejo do mangue da ponte dos Barreiros. Nunca vi o Lula por lá… Era a mesma época que ele saiu do Nordeste e veio de pau de arara para Santos.

Aos dezoito anos, decidi estudar Letras – português, inglês e literatura. Era muito tímido e quase não participava das aulas. Trabalhava em um armazém do porto, saía às cinco horas da madrugada de casa para chegar às sete horas no relógio de ponto. Trabalhava o dia inteiro, ia pra casa tomar banho, andava até o ponto de ônibus do cemitério e ia para a faculdade. Não aguentava de tanta fraqueza e cansaço. Era muito magro, 50 quilos, e, graças a Deus, essa magreza (pau de virar tripa) evocavam comiseração. As meninas da minha sala de aula tinham tanta dó de mim que faziam os trabalhos por mim e incluíam o meu nome. Pagava a faculdade pintando casas e apartamentos, rodando mimeógrafo, fazendo bicos e reparos em construção civil, tudo com a ajuda de minha mãe, que costurava para fora. Meu pai queria que eu fosse um engenheiro civil e, quando decidi fazer Letras, ele jurou que não aportaria um “puto” (centavo) para o custeio do curso. Jurou e cumpriu.

Conclui a faculdade de Letras, aos trancos e barrancos. Não tinha trabalho. Como bacharel em Letras (literatura e idiomas) eu só podia dar aulas nessas matérias e era tímido demais para me expor na frente de uma sala de aula. Mas eu tinha planos grandiosos, possivelmente fantasiosos. Aos doze anos, dizia sempre para minha irmã: “Xulica, vou ser muito rico, mas vou ser muito pobre”. O paradoxo confundia a cabeça da coitadinha. Mas só eu sabia o que ia dentro da minha mente.

Procurei intensamente emprego em São Paulo e Rio de Janeiro como revisor de textos, tradutor, qualquer coisa. Nada. Após um ano de tentativas, voltei para Santos envergonhado e desesperado. Fui então convidado a ir a um culto protestante na igreja Batista. Encantei-me à primeira visita. Havia música alegre, jovens sorridentes, relacionamentos, estudos bíblicos, sociabilização, coisas que nunca tive em minha casa. Vivia em cima de um andaime, estudando e catando caranguejo. Após o culto, levantei a mão, “aceitei a Cristo”, fui à frente do púlpito, fiquei contrito, me arrependi dos meus pecados. Em seguida, me batizaram por imersão e comecei a viver uma nova vida em Cristo. “Se alguém está em Cristo é nova criatura; as coisas velhas já passaram, eis que tudo se fez novo”. Tudo como manda o figurino litúrgico.

Como era catedrático, estudioso, curioso e ambicioso pelo saber, comecei a estudar tudo em torno da teologia: hermenêutica, homilética, exegese, história etc. Criei um jornalzinho para transmitir meus pensamentos: PAZ. Eu escrevia os artigos, editava, rodava no mimeógrafo e distribuía para a congregação. Pela minha dedicação, logo fui promovido para ocupar cargos como presidente da juventude, diácono, presbítero. Virei a menina dos olhos do pastor. Comecei a estudar música e logo tocava guitarra com proficiência e compunha as músicas que a juventude cantava. Fazíamos acampamentos, piqueniques, retiros espirituais. Os jovens se relacionavam com muita intensidade. Tudo era encantador e estimulante. Memoráveis tempos! “Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo…” (G. Rosa)

Li toda a Bíblia, mas a minha predileção eram os Evangelhos. Queria conhecer e aprender com a figura intrigante de Cristo. Para quem saiu do andaime, o que aprendi e conquistei já era o bastante. Eu era muito estimado e elogiado pelo clero da igreja, mas era inquieto. Não me aquietava com o status quo, com os dogmas herdados, com as doutrinas replicadas. Comecei a usar o PAZ para expressar meus pensamentos sobre espiritualidade e religiosidade e defender que praticar e vivenciar os dois era algo antagônico. A religiosidade é um tratado teológico que trata das externalidades da fé cristã; a espiritualidade é afeição e convivência com o ser humano e com o transcendente. Na religiosidade, quanto mais se aprende, mais mérito; na espiritualidade, quanto mais se desaprende e vivencia, mais perto da transcendência.

Em seu último livro, Homo Deus, Yuval Noah Harari explica, brilhantemente, a diferença entre religião e espiritualidade:

“Religião é qualquer coisa que confira legitimidade sobre-humana a estruturas sociais humanas. A religião legitima normas e valores ao alegar que eles refletem leis sobre-humanas.”

“A religião provê uma descrição completa do mundo e nos oferece um contrato bem definido, com objetivos predeterminados. Jornadas espirituais não se assemelham a nada disso. Eles levam as pessoas por caminhos misteriosos em direção a destinos desconhecidos. Enquanto a maioria das pessoas simplesmente aceita as respostas predefinidas fornecidas pelas forças dominantes, aquelas que buscam a espiritualidade não se satisfazem tão facilmente. Estão determinadas a sair em busca da grande questão, aonde quer que isso as leve, e não só a lugares que conhecem bem ou que querem visitar. Assim, para muita gente os estudos acadêmicos são um trato, e não uma jornada espiritual.”

“Para as religiões, a espiritualidade é uma ameaça perigosa. Tipicamente, as religiões empenham-se para controlar as buscas espirituais de seus seguidores, e muitos sistemas religiosos são desafiados não por pessoas laicas preocupadas com comida, sexo e poder, e sim por buscadores da verdade espiritual que esperavam mais do que esses lugares comuns.”

Como nos ensina o filósofo taoista Lao Tsu, “quanto mais se fala dele [do Universo] menos se compreende. Melhor seria inserir-se nele”.

E o poeta camponês Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, pergunta no poema XXII: “Mas quem me mandou querer perceber? Quem me disse que havia que perceber?”

Na religiosidade se aprende a pensar, a elaborar; na espiritualidade se aprender a simplesmente ver e se contentar. Se não é preciso compreender o Universo, depreende-se que não é preciso fazer uso da inteligência. A prerrogativa suprema consiste em “tudo ver e tudo conhecer sem usar a inteligência” (Cap. X do Taoismo).

Caeiro segue o raciocínio: “O essencial é saber ver, saber ver sem estar a pensar…”

“O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…”

Para o Tao, “quem muito sabe ficará na dúvida” (XXII). Para tanto, “procuro despir-me do que aprendi”.

Caeiro propõe também a ciência do não-saber, substituindo-a pela “ciência do ver”.

“Mas isso (…) exige uma aprendizagem de desaprender” (XXIV).

Com essa epifania, comecei a viver a espiritualidade do texto de Pierre Teilhard de Chardin, um padre jesuíta, teólogo, filósofo e paleontólogo francês que tentou construir uma visão integradora entre ciência e teologia:

“A religião não é apenas uma, são centenas.

A espiritualidade é apenas uma.

 

A religião é para os que dormem.

A espiritualidade é para os que estão despertos.

 

A religião é para aqueles que necessitam que alguém lhes diga o que fazer e querem ser guiados.

A espiritualidade é para os que prestam atenção à sua Voz Interior.

 

A religião tem um conjunto de regras dogmáticas.

A espiritualidade te convida a raciocinar sobre tudo, a questionar tudo.

 

A religião ameaça e amedronta.

A espiritualidade lhe dá Paz Interior.

 

A religião fala de pecado e de culpa.

A espiritualidade lhe diz: “aprenda com o erro”…

 

A religião reprime tudo, te faz falso.

A espiritualidade transcende tudo, te faz verdadeiro!

 

A religião não é Deus.

A espiritualidade é Tudo e, portanto é Deus.

 

A religião inventa.

A espiritualidade descobre.

 

A religião não indaga nem questiona.

A espiritualidade questiona tudo.

 

A religião é humana, é uma organização com regras.

A espiritualidade é Divina, sem regras.

 

A religião é causa de divisões.

A espiritualidade é causa de União.

 

A religião lhe busca para que acredite.

A espiritualidade você tem que buscá-la.

 

A religião segue os preceitos de um livro sagrado.

A espiritualidade busca o sagrado em todos os livros.

 

A religião se alimenta do medo.

A espiritualidade se alimenta na Confiança e na Fé.

 

A religião faz viver no pensamento.

A espiritualidade faz Viver na Consciência…

 

A religião se ocupa com fazer.

A espiritualidade se ocupa com Ser.

 

A religião alimenta o ego.

A espiritualidade nos faz Transcender.

 

A religião nos faz renunciar ao mundo.

A espiritualidade nos faz viver em Deus, não renunciar a Ele.

 

A religião é adoração.

A espiritualidade é Meditação.

 

A religião sonha com a glória e com o paraíso.

A espiritualidade nos faz viver a glória e o paraíso aqui e agora.

 

A religião vive no passado e no futuro.

A espiritualidade vive no presente.

 

A religião enclausura nossa memória.

A espiritualidade liberta nossa Consciência.

 

A religião crê na vida eterna.

A espiritualidade nos faz consciente da vida eterna.

 

A religião promete para depois da morte.

A espiritualidade é encontrar Deus em Nosso Interior durante a vida.

 

“Não somos seres humanos passando por uma experiência espiritual…

Somos seres espirituais passando por uma experiência humana…”

Reconverti: da religião para a espiritualidade.

Conclusão: fui expulso da igreja institucionalizada pelos “saduceus” e “escribas”!

Tive que trabalhar para custear minha faculdade e meus sonhos de casamento. Morava em São Vicente, o lado pobre de Santos. A principal atividade de Santos é o porto. Comecei a trabalhar, então, numa agência de navegação como trainee. Já sabia inglês razoavelmente, mas me colocaram para carimbar documentos (Bills of Lading) o dia inteiro, buscar tripulante doente no navio e levar para o médico. Geralmente tratava-se de portador de gonorreia e sífilis. E levava flores e presentes para a esposa do capitão quando o navio atracava, visando cativá-lo para que ele facilitasse eventuais contravenções… Uma forma de corrupção… Considerava minhas atividades rasas e repetitivas, e então comecei estudar a bibliografia em inglês sobre técnicas de afretamento de navios (chartering practices, conhecimento técnico até então desconhecido no Brasil). Após quatro anos carimbando e estudando, os diretores notaram meu potencial e me mandaram para gerenciar um departamento comercial em São Paulo. Avenida Paulista, prédio de vidros, usar terno, almoçar com clientes em restaurantes grã-finos, viajar de avião, tomar whisky… Mudança radical! Colocaram a raposa no galinheiro! Era a transformação da galinha e o preparo do voo da águia!

Um dia, um navio de filantropia que transportava uma biblioteca atracou no porto de Santos. Chamava-se Doulos, que quer dizer “servo” em grego. Onde atracava fazia filantropia com a população local. Por ter uma formação simplória e muito pobre, sempre sonhei em fazer dinheiro para ajudar meus pais, meus parentes e demais pessoas carentes. Fiquei tão inspirado e animado que ousei me mudar para Belo Horizonte para criar, do nada, a minha própria empresa de navegação. Inspirado pelo navio Doulos, nomeei a empresa de Doulos Chartering. Em resumo, como em terra de cego quem tem um olho é rei, e como Minas Gerais não tem mar e Belo Horizonte fica no meio de montanhas e não domina as tecnicalidades da navegação, desenvolvi e evolui a empresa de forma muito célere. De uma simples empresa de broking (corretor) evolui para uma empresa de operação e propriedade de navios. Virei um magnatinha. Abri escritórios suntuosos em Vitoria, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Londres. Fiz muito dinheiro e um bom patrimônio durante os 30 anos de atividade intensa e exitosa. E cumpri meus objetivos implementando a ideia original da Doulos: financiei iniciativas de caridade em São Tomé e Príncipe, mandei uma Land Rover para servir de ambulância em Guine Bissau, em Macau com asilo de crianças e em Goa na Índia, na recuperação de crianças e púberes obrigadas à prostituição. E tantas outras iniciativas no Brasil, que prefiro não falar para não me gabar…

Mas ressoava em minha mente as palavras do poeta camponês Alberto Caeiro:

“E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade.

O Menino Jesus tinha pena e subestimava os “comércios e navios”, tudo que eu fazia e me dedicava diariamente… e asseverava que tudo isso falta ÀQUELA VERDADE. Sentia falta da literatura, do violão, dos idiomas, do ócio criativo… Pensar que eu estava fazendo uma coisa que NÃO ERA VERDADE me incomodava! Foi então que falei: – Basta! De supetão, parei com tudo. Passei as empresas para meus sócios e empregados, vendi meu apartamento de cobertura em Londres e voltei para Belo Horizonte.

Ali comecei a desenvolver projetos sociais de tecnologia de informação com sustentabilidade, me envolvi com a Administração Pública, voltei para a escola de música, comecei a escrever poemas curtinhos com evocações filosófica, a ler inveteradamente Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, a renovar minha paixão literária, a cuidar de jardim, a ficar ocioso, a tomar vinho, a viajar distraído. Virei um generalista. Mas verdadeiro! Virei eu!

Numa de minhas tantas viagens, fui parar no Uruguai, num lugarejo chamado El Pinar, um balneário sem expressão turística, mas para mim era o Jardim do Éden. Um lugar paradisíaco: pinheiros elevados, vizinhos amáveis que tinham o prazer de nos ensinar espanhol, não havia muro entre as casas e todas elas tinham grandes e lindos jardins floridos. Não voltamos mais para o Brasil. Alugamos uma casinha bem pequena, mas com um gramado e um jardim enormes, árvores maduras e pés de laranja. As praias eram desérticas e cheias de dunas. Só havia um restaurante lindo de madeira na confluência do mar e do arroyo (rio). Eu e minha então esposa ficávamos no deck externo admirando o mar e o rio se entrelaçando enquanto recitávamos poesias, depois entrávamos para ficar em frente à lareira quando o frio apertava. Era um prazer inenarrável. Conversávamos com o proprietário Ramon tomando um bom vinho e assim, como diria o poeta Neruda, Confieso que he vivido.

Nesses anos todos de trabalho, enquanto meus dogmas protestantes iam diminuindo, minha fé, admiração e afeto por Cristo iam aumentando. Lia intensamente os evangelhos, os primeiros livros do Novo Testamento que contam a história da vida de Jesus, mas não me conformava com uma coisa – por que quatro narrativas de sua vida? Uns livros repetiam episódios, outros omitiam, outros contavam episódios diferentes. E não me conformava com aquela linguagem ortodoxa, arcaica, dogmática, religiosa. Ficava imaginando “- Cristo não falava dessa maneira rebuscada!” Ele era um homem simples, carpinteiro (fazia carrinho de madeira), brincava, tinha amigos e quando completou 30 anos assumiu publicamente que era o Deus-Humano. Vivia no meio dos pobres, doentes, iletrados, beberrões e prostitutas, entre aqueles que não sabiam falar bonito e rebuscadamente. E Cristo falava como eles. Nesse sentido, acredito que muita gente deixa de conhecer a vida de Cristo e perde a oportunidade de aprender com ela porque a Bíblia remete ao religioso, ao incompreensível, ao transcendente. É incompreensível e soa como careta… Ser chamado de “crente” é vexatório, é subestimar a inteligência.

Resolvi então escrever uma narrativa unificada da vida Cristo, tendo como base os quatro evangelhos – Mateus, Marcos, Lucas e João. Deu um trabalho danado colocar em colunas os episódios que se repetiam em cada evangelho, ordenar os episódios cronologicamente, transcrever expressões da época em linguagem corrente e vernacular (como moeda, horários, costumes judaicos etc.). Foi um trabalho árduo e demorado. Boa parte dos textos elaborei no sossego do Uruguai, em geral ao final do dia até à madrugada. Durante o dia, andava de quadriciclo nas dunas da praia, fazia churrasco (Parilla) e tomava vinho com minha esposa e nos divertíamos como crianças sem rédeas. Não pensávamos em nada e não tínhamos mistérios e nem metafísica. Brincávamos e olhávamos a natureza ao nosso derredor e plantávamos mudas, principalmente beijinhos coloridos (que os uruguaios chamam de “alegria”). Andávamos com o Deus-Humano a toda hora e tínhamos a todo o instante o “pasmo essencial”, como nosso companheiro Alberto Caeiro:

“Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer
Reparasse que nascera deveras…”

Vivíamos em harmonia com a natureza, com a comunidade local, de mãos dadas com o Deus-Humano, seguindo a orientação do Evangelista João: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós”. O Verbo, o Princípio Ativo cria um Deus absolutamente humano e real que foge do céu porque “No céu tinha que estar sempre sério”. Um Deus que brinca, ri, dorme, é engraçado e afetivo porque “Era nosso demais para fingir”. “Criou-se eternamente humano e menino” e nós nos apaixonamos por esse Deus-Humano, como meu avô incrédulo (agnóstico , como ele corrige) Alberto Caeiro:

  1. Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. É correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas,
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

“Constituição íntima das coisas”…
“Sentido íntimo do Universo”…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em coisas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das coisas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina.)

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

Aprendi muito também com o jagunço Riobaldo, que sabia se deleitar e respeitar a “religião”, que no jargão capiau quer dizer “espiritualidade” autêntica. Aforismos como:

“Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo o rio… uma só para mim é pouca, talvez não me chegue.”

“A força de Deus quando quer – moço! – me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho – assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se discutindo, se economiza.”

“Refiro ao senhor: um outro doutor, doutor rapaz, que explorava as pedras turmalinas no vale do Arassuaí, discorreu me dizendo que a vida da gente encarna e reencarna, por progresso próprio, mas que Deus não há. Estremeço. Como não ter Deus? Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo.”

“Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver.”

É nesse contexto e espírito pueril e ócio criativo que fui tecendo a narrativa de Jesus: o Deus-Humano, buscando unificar os evangelhos aprender a ver com olhar de girassol e a não pensar, a “não andar ocioso por nada”, como recomenda o Deus-Humano, vivendo no acaso da graça divina. “O Acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído” (Titãs). Tudo foi feito com muito critério, zelo e paixão para que a narrativa unificada refletisse exatamente o texto e sentido da época.

Meu objetivo? O mesmo do Evangelista Lucas ao escrever a narrativa de Jesus para Teófilo. Muita gente já se dedicou a contar como o Deus-humano viveu na Terra. Elas contaram narrativas que ouviram das pessoas que estavam presentes desde o começo da história e eram seus seguidores. Eu fiz diferente: pesquisei tudo detalhadamente, desde o começo. Decidi então escrever uma história bem organizada, amigo Teófilo. O objetivo é que você tenha a convicção das coisas que foram narradas.

Quais as razões e motivações para se ter uma narrativa unificada da vida de Jesus? Minha intenção não foi melhorar as histórias de Jesus, mas incitar os leitores a conhecê-las, principalmente os que não sabem nada de sua vida. A ideia é facilitar e acelerar a curva de aprendizagem, inspirando o interesse pelo ser humano divino que mais influenciou a humanidade e, acima de tudo, gerando prazer através da leitura, para que os leitores possam aplicar os ensinamentos de Cristo em seu cotidiano, dando um salto da religião para a espiritualidade: “A letra (o dogma) mata; o espírito traz vida”.

Outra ideia foi tentar esclarecer a repetição e os pontos aparentemente conflitantes dos evangelhos, buscando uma sincronização dos fatos que permitisse ao leitor uma leitura agradável e linear, como se lê numa biografia moderna.

Ao alinhar os trechos paralelos e repetitivos em cada um dos quatro evangelhos se evita a duplicidade e o resultado é uma história simples e completa bem mais curta e mais fácil de entender.

Porque fundir os quatros Evangelhos?  Primeiro, é fundamental preservar na íntegra cada um dos episódios da vida de Jesus, porque cada um contém narrativas, eventos e estórias únicas.

Obviamente, não é minha pretensão que Jesus: o Deus-Humano substitua os quatros evangelhos da Bíblia. Entretanto, pelo fato de existirem duplicidades e omissões nos evangelhos, as vantagens de se produzir uma narrativa única e concisa de leitura simples e compreensível têm sido reconhecidas há muito tempo. A primeira tentativa de fundir o conteúdo dos quatro evangelhos em uma única narrativa foi o Diatessarão, escrito por Tatiano, ano 160 d.C. O Diatessarão foi amplamente divulgado na igreja primitiva e usado exclusivamente como evangelho por mais de 200 anos, até o ano de 405, quando a igreja Romana produziu a versão Vulgata do Novo Testamento em Latim. A vulgata manteve com os mesmos quatro evangelhos separados que Tatiano usou.

Pelo fato de haver diferenças em detalhes em cada episódio, nenhuma narrativa pode ser em si mesma considerada completa ou precisa se falta um detalhe mencionado em um ou mais evangelhos. Assim, ler os quatro evangelhos juntos e unificados é uma forma de entender o que Cristo disse e fez.

 

 

Ordenação da linha do tempo da estória

A fim de separar cronologicamente todos os eventos dos quatro evangelhos, é necessário estabelecer uma linha do tempo para a vida comum e a missão divina de Jesus. Estabelecer uma linha do tempo é problemática porque os eventos registrados dentro dos quatro evangelhos estão na mesma ordem cronológica. Isso implica reconhecer que não importa qual narrativa do evangelho é usada como âncora para uma linha de tempo, a sequência dos versos dos outros três evangelhos precisam ser quebrados e reordenados muitas vezes para incluir todos os ensinamentos e eventos na mesma linha do tempo.

A biografia linear de Jesus relatada com simplicidade nos mostra um Deus mais humano do que divino, mais imanente do que transcendente. O livro dos Hebreus 4:15/16 na Bíblia nos assevera que: “não temos um sumo sacerdote que não sente as nossas dores e fraquezas, mas, sim, alguém que, como nós, passou por todo tipo de tentação humana, porém sem cometer erros”. Assim, vamos nos aproximar do trono da graça com toda a confiança para recebermos alegria e graça que nos ajude no momento de necessidade. Novamente, o escritor Harari nos propõe um teste para se testar a realidade: Ao se examinar a história de qualquer rede humana, é recomendável parar de vez em quando e olhar as coisas da perspectiva de alguma entidade real. Como se sabe se uma entidade é real? Muito simples: apenas pergunte a si mesmo: “ela é capaz de sofrer”?

Jesus preenche os quesitos de Harari em Homo Deus ao ser o primeiro Deus-Humano. Ele nos incentivou a buscarmos também esse estágio, afirmando “Vocês são Deuses” e reafirmando aos salmistas que “vocês vão fazer coisas fenomenais ainda maiores que a minha”.

Vale a pena conhecer a visão e endosso de Harari a essa assertiva de Jesus: “Mesmo que os detalhes sejam obscuros, podemos ter uma noção correta da direção geral da história. No século XXI, o terceiro grande projeto da humanidade será adquirir poderes divinos da criação e destruição e elevar o Homo Sapiens à condição de Homo deus… a nova agenda da humanidade consiste em um só projeto (com muitos ramos): alcançar a divindade.”

O aprendiz João diz que se escrevêssemos tudo que Jesus fez não caberia em todos os livros do mundo. Mas, se coubesse, concluiria a mensagem com o desfecho de Alberto Caeiro:

Esta é a história do meu Menino Jesus.
Por que razão que se perceba
Não há-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filósofos pensam
E tudo quanto as religiões ensinam?