A força Criativa

Aprendi muito também com o jagunço Riobaldo, que sabia se deleitar e respeitar a “religião”, que no jargão capiau quer dizer “espiritualidade” autêntica. Aforismos como:

“Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo o rio… uma só para mim é pouca, talvez não me chegue.”

“A força de Deus quando quer – moço! – me dá o medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho – assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se discutindo, se economiza.”

“Refiro ao senhor: um outro doutor, doutor rapaz, que explorava as pedras turmalinas no vale do Arassuaí, discorreu me dizendo que a vida da gente encarna e reencarna, por progresso próprio, mas que Deus não há. Estremeço. Como não ter Deus? Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai-vem, a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois, no fim dá certo.”

“Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa de existir para haver.”

É nesse contexto e espírito pueril e ócio criativo que fui tecendo a narrativa de Jesus: o Deus-Humano, buscando unificar os evangelhos aprender a ver com olhar de girassol e a não pensar, a “não andar ansioso por nada”, como recomenda o Deus-Humano, vivendo no acaso da graça divina. “O Acaso vai me proteger enquanto eu andar distraído” (Titãs). Tudo foi feito com muito critério, zelo e paixão para que a narrativa unificada refletisse exatamente o texto e sentido da época.

Meu objetivo? Repito: o mesmo do Evangelista Lucas ao escrever a narrativa de Jesus para Teófilo. “ Muita gente já se dedicou a contar como o Deus-humano viveu na Terra. Elas contaram narrativas que ouviram das pessoas que estavam presentes desde o começo da história e eram seus seguidores. Eu fiz diferente: pesquisei tudo detalhadamente, desde o começo. Decidi então escrever uma história bem organizada, amigo Teófilo. O objetivo é que você tenha a convicção das coisas que foram narradas.”

Quais as razões e motivações para se ter uma narrativa unificada da vida de Jesus? Minha intenção não foi melhorar as histórias de Jesus, mas incitar os leitores a conhecê-las, principalmente os que não sabem nada de sua vida, como não sabem de Albert Camus. A ideia é facilitar e acelerar a curva de aprendizagem, inspirando o interesse pelo ser humano divino que mais influenciou a humanidade e, acima de tudo, gerando prazer através da leitura, para que os leitores possam se deleitar e aplicar os ensinamentos de Cristo em seu cotidiano, dando um salto da religião para a espiritualidade: “A letra (o dogma) mata; o espírito traz vida”.

Outra ideia foi tentar esclarecer a repetição e os pontos aparentemente conflitantes dos evangelhos, buscando uma sincronização dos fatos que permitisse ao leitor uma leitura agradável e linear, como se lê numa biografia moderna.

Ao alinhar os trechos paralelos e repetitivos em cada um dos quatro evangelhos se evita a duplicidade e o resultado é uma história simples e completa bem mais curta e mais fácil de entender.