Começa a Dureza

Tive que trabalhar para custear minha faculdade e meus sonhos de casamento. Morava em São Vicente, o lado pobre de Santos. A principal atividade de Santos é o porto. Comecei a trabalhar, então, numa agência de navegação como trainee. Já sabia inglês razoavelmente, mas me colocaram para carimbar documentos (Bills of Lading) o dia inteiro, buscar tripulante doente no navio e levar para o médico. Geralmente tratava-se de portador de gonorreia e sífilis. E levava flores e presentes para a esposa do capitão quando o navio atracava, visando cativá-lo para que ele facilitasse eventuais contravenções… Uma forma de corrupção… Considerava minhas atividades rasas e repetitivas, e então comecei estudar a bibliografia em inglês sobre técnicas de afretamento de navios (chartering practices, conhecimento técnico até então desconhecido no Brasil). Após quatro anos carimbando e estudando, os diretores notaram meu potencial e me mandaram para gerenciar um departamento comercial em São Paulo. Avenida Paulista, prédio de vidros, usar terno, almoçar com clientes em restaurantes grã-finos, viajar de avião, tomar whisky… Mudança radical! Colocaram a raposa no galinheiro! Era a transformação da galinha e o preparo do voo da águia!

Um dia, um navio de filantropia que transportava uma biblioteca atracou no porto de Santos. Chamava-se Doulos, que quer dizer “servo” em grego. Onde atracava fazia filantropia com a população local. Por ter uma formação simplória e muito pobre, sempre sonhei em fazer dinheiro para ajudar meus pais, meus parentes e demais pessoas carentes. “Tirar todo mundo da roça e do andaime”, sonhava. Fiquei tão inspirado e animado que ousei me mudar para Belo Horizonte para criar, do nada, a minha própria empresa de navegação. Inspirado pelo navio Doulos, nomeei a empresa de Doulos Chartering. Em resumo, como em terra de cego quem tem um olho é rei, e como Minas Gerais não tem mar e Belo Horizonte fica no meio de montanhas e não domina as tecnicalidades da navegação, desenvolvi e evolui a empresa de forma muito célere. De uma simples empresa de broking (corretor) evolui para uma empresa de operação e propriedade de navios. Virei um magnatinha. Abri escritórios suntuosos em Vitoria, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Londres. Fiz muito dinheiro e um bom patrimônio durante os 30 anos de atividade intensa e exitosa. E doei tudo. E cumpri meus objetivos implementando a ideia original da Doulos: financiei iniciativas de caridade em São Tomé e Príncipe, mandei uma Land Rover para servir de ambulância em Guine Bissau, em Macau com asilo de crianças e em Goa na Índia, na recuperação de crianças e púberes obrigadas à prostituição. E tantas outras iniciativas no Brasil, que prefiro não falar para não me gabar…

Mas ressoava em minha mente as palavras do poeta camponês Alberto Caeiro:

“E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta àquela verdade.

O Menino Jesus tinha pena e subestimava os “comércios e navios”, tudo que eu fazia e me dedicava diariamente… e asseverava que tudo isso falta ÀQUELA VERDADE. Sentia falta da literatura, do violão, dos idiomas, do ócio criativo… Pensar que eu estava fazendo uma coisa que NÃO ERA VERDADE me incomodava! Foi então que falei: – Basta! De supetão, parei com tudo. Passei as empresas para meus sócios e empregados, vendi meu apartamento de cobertura em Londres e voltei para Belo Horizonte.