Conclusão

O objetivo dessa narrativa é escancarar o lado humano e não dogmático, religioso de Jesus. E nos permitirmos  impactar na afeição por ele a ponto de seguir seus ensinamentos e exemplos com prazer.

Não importa se ele é o Deus-Humano ou não; importa o impacto positivo e transformador na vida de milhares de pessoas. Ninguém teve tal impacto. Pode-se aplicar seus ensinamentos nos comportamentos, na ética, na espiritualidade, na imanência ou na transcendência. “He is the Guy” (Ele é o Cara).

É confortável saber que Jesus tinha uma baita queda com os maltrapilhos, como eu e você..”Um dos mistérios da tradição do evangelho é essa estranha atração de Jesus pelos que não tinham nada de atraente,esse estranho desejo pelos que não eram nada desejáveis, esse estranho amor pelos que não tinham nada amável.” Manning.

Ele foi e é  o Deus-humano que faltava. Humano, demasiadamente humano. Que convivia tão bem com os maltrapilhos, que brincava com as crianças, que comia e bebia com os pinguços e sem religião e era acusado de ser um deles, tanto que convivia com eles. Que fazia desenhos pueris e engraçados na areia enquanto o povo esperava seu veredicto de uma prostituta acusada. E se tornou seu melhor amigo. Que andava de jegue. Que morava numa tapera. Que era sustentado por um grupo de mulheres.  Que se compadecia da miséria humana  e chorava.

O povão convivia e comia com Jesus. Esse gesto envolvia mais do que mera polidez ou companhia. Significava paz, aceitação, reconciliação e irmandade. “Para Jesus, essa comunhão à mesa com aqueles que os devotos haviam descartado não era meramente expressão de uma tolerância liberal e de um sentimento humanitário. Era a expressão de sua missão e de sua mensagem: paz e reconciliação para todos, sem exceção, até mesmo para os fracassados morais.” (Edward Schillbeeckx. Jesus, um Experimento em Cristologia.)

Esse é o Deus-humano que salta das páginas de uma escrita dogmática e comprometida com um clero, com a religiosidade e não com a humanidade. Salta às páginas dos Evangelhos um Deus terno, doce, simples, que nos ensina a admirar a beleza branca dos lírios do campo e o burburilho das crianças.

Jesus era afeito à celebração e autenticidade de vida, concordando com Santa Teresa Davila “poupa-nos, Senhor, de tolas devoções e de santos de cara amarrada.” Não entendia porque “tocavam flautas” e não dançavam.

Jesus era a criança que brincava e fazia estrepolias, como, metaforicamente,nos ensina o poeta Alberto Caieor.“É inconcebível imaginar um Jesus de cara fechada, austero, sombrio e censurador, que se reclinava à mesa os maltrapilhos. A personalidade humana de Jesus é subestimada quando vista como uma máscara passiva para discursos dramáticos da divindade. Essa timidez rouba Jesus de sua humanidade, encerra-o num molde de gesso e conclui que ele não dava risada, não chorava, não sorria nem se magoava – apenas passava pelo nosso mundo sem qualquer envolvimento emocional.” (Manning)

Ele preconiza o Evangelho da graça, e não do toma-lá-dá-cá. Fyodor Doststoieviski capturou a contradição do evangelho da graça ao escrever: “ No último Julgamento Cristo nos dirá: “ Vinde, vós também! Vinde, bêbados! Vinde vascilantes! Vinde, filhos do opróbrio! E dir-nos-á: “Seres vis, vós que sois à imagem da besta e trazem a sua marca, vinde porém da mesma forma, vós também! E os sábios e prudentes dirão: “Senhor, por que os acolhe? E Ele dirá:”Se os acolho, homens sábios, se os acolho , homens prudentes, é porque nenhum deles foi jamais julgado digno.” E ele estenderá os seus braços, e cairemos a seus pés, e choraremos e soluçaremos,e então compreenderemos tudo, compreenderemos Evangelho da graça! Senhor, venha o teu Reino.”

“O Reino de Deus está dentro de vocês.” Não está na homilia,nos hinos sacros, nas músicas gospel, nos cultos e missas cantochões de um Deus-Humano, que é apenas humano.

Jesus é o Deus-humano que veio para nos libertar para a contemplação e gozo da vida cotidiana. Para o carpe diem! Jesus nos convoca para bailarmos a vida! Sem ele, a vida assume uma qualidade vazia e desprovida de contentamento, lembrando a passagem de Eugene O´Neill O Grande Deus Brown:” Por que tenho medo de dançar, eu que amo a música e o ritmo e a graça e a canção e o riso? Por que tenho medo de viver, eu que amo a vida e a beleza da carne e as cores vivas da terra e o céu e o mar? Por que tenho medo de amar, eu que amo o amor.?”

E tudo isso ganhamos de presente, sem esforço, sem missa, sem escadaria…“A graça proclama a assombrosa verdade de que tudo é de presente. Tudo de bom é nosso não por direito, mas meramente pela liberalidade de um Deus gracioso.”Brennan Manning. Deus disse ao apóstolo Paulo que vivia reclamando de uma fraqueza: “A minha graça te basta, porque o meu poder ser aperfeiçoa na fraqueza. Portanto, vou me gabar da minha fraqueza para que em mim se manifeste o poder de Cristo.” (2 Coríntios 12:9)

Ao fugirmos de seu convívio, o Deus-humano está sempre pronto e de braços abertos para nos recebermos de volta para o lar, como em sua ilustração do Filho Esbanjão.

Henri Mouwen descreve essa cena, brilhantemente: “ Como os olhos da mente vejo a pintura de Rembrandt A Volta do Filho Pródigo (esbanjão). O pai de olhos mortiços abraça junto ao peito, com amor incondicional, o filho que retornou. As duas mãos, uma forte e masculina, outra gentil e feminina, repousam sobre os ombros do filho. Ele não está olhando para o filho, mas sente seu corpo jovem e cansado e deixa-o descansar nos seu abraço. Seu vasto manto vermelho é como as asas de uma mãe-pássaro cobrindo sua frágil ninhada. Ele parece pensar numa única coisa: ele voltou, e estou contente de tê-lo comigo de novo. Por que então adiar.? Deus está ali em pé de braços abertos, esperando para me abraçar. Ele não fará nenhuma pergunta sobre o meu passado. Ter-me de volta é tudo que ele deseja.” (Henri Nouwen: The Prodigal comes home)