Conhecer para Crer

Conhecer para crer

Li toda a Bíblia, mas a minha predileção eram os Evangelhos. Queria conhecer e aprender com a figura intrigante de Cristo. Para quem saiu do andaime, o que aprendi e conquistei já era o bastante. Eu era muito estimado e elogiado pelo clero da igreja, mas era inquieto. Não me aquietava com o status quo, com os dogmas herdados, com as doutrinas replicadas. Comecei a usar o periódico PAZ para expressar meus pensamentos sobre espiritualidade e religiosidade e defender que praticar e vivenciar os dois era algo antagônico. A religiosidade é um tratado teológico que trata das externalidades da fé cristã; a espiritualidade é afeição e convivência com o ser humano e com o transcendente. Na religiosidade, quanto mais se aprende, mais mérito; na espiritualidade, quanto mais se desaprende e vivencia, mais perto da transcendência.

Em seu último livro, Homo Deus, Yuval Noah Harari explica, brilhantemente, a diferença entre religião e espiritualidade:

“Religião é qualquer coisa que confira legitimidade sobre-humana a estruturas sociais humanas. A religião legitima normas e valores ao alegar que eles refletem leis sobre-humanas.”

“A religião provê uma descrição completa do mundo e nos oferece um contrato bem definido, com objetivos predeterminados. Jornadas espirituais não se assemelham a nada disso. Eles levam as pessoas por caminhos misteriosos em direção a destinos desconhecidos. Enquanto a maioria das pessoas simplesmente aceita as respostas predefinidas fornecidas pelas forças dominantes, aquelas que buscam a espiritualidade não se satisfazem tão facilmente. Estão determinadas a sair em busca da grande questão, aonde quer que isso as leve, e não só a lugares que conhecem bem ou que querem visitar. Assim, para muita gente os estudos acadêmicos são um trato, e não uma jornada espiritual.”

“Para as religiões, a espiritualidade é uma ameaça perigosa. Tipicamente, as religiões empenham-se para controlar as buscas espirituais de seus seguidores, e muitos sistemas religiosos são desafiados não por pessoas laicas preocupadas com comida, sexo e poder, e sim por buscadores da verdade espiritual que esperavam mais do que esses lugares comuns.”

Como nos ensina o filósofo taoista Lao Tsu, “quanto mais se fala dele [do Universo] menos se compreende. Melhor seria inserir-se nele”.

E o poeta camponês Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, pergunta no poema XXII: “Mas quem me mandou querer perceber? Quem me disse que havia que perceber?”