Quem escreveu

Quem escreveu

Sempre tive o hábito de parafrasear escritos e imitar pessoas. Parafrasear é escrever o mesmo texto de forma diferente, discreta,mas mantendo o sentido, tornando a sua leitura mais acessível ou atualizada.Assim como imitar é fingir ser certa pessoa através de sua fala e seus gestos. Ambos têm de ser o mais próximo da realidade. É difícil parafrasear ou imitar sem distorcer ou ser grotesco. Antes de discorrer sobre a árdua tarefa de unificar os evangelhos relatando a vida de Cristo em uma biografia unificada, preciso contar um pouco do pano de fundo de como isso foi feito e de quem fez. Assim como Lucas explicou ao seu aluno Teófilo porque estava recontando a vida de Jesus.

Desde minha adolescência tive uma admiração muito forte pelo que Cristo fez e foi. Lia muito a Bíblia, principalmente os quatro evangelhos. Recordo-me quando visitava a casa de minha vó Espanhola, que proferia palavrões em Espanhol para que não entendêssemos e obedecêssemos.  Eram os idos anos 60, em Lins, interior de São Paulo. A casa era uma tapera, rebocada com barro. Fogão a lenha, chão de terra socada. Não havia luz elétrica, mas lamparina a querosene. O banheiro era uma casinha de madeira no quintal com uma argola pra gente se segurar enquanto acocorado. A água tinha que ser tirada com um balde, puxada por sarilho para fora de um poço. Não era raro virem sapos nos baldes de água. Tempos difíceis, mas saudosos. Foi lá que aprendi a linguagem de Guimarães Rosa e até ensaiei escrever uns poemas com a idêntica proposta: o universal parte do local, salpicando os escritos com pepitas, aforismos de sabedoria.

À noite, após tomar um banho de “corgo” (córrego), junto com os lambaris e sucuris, comia carne de porco na lata cheia de gordura. Uma delícia! Depois ia pra cama e lia por horas seguidas os evangelhos à luz bruxuleante da lamparina. Ficava encantando, experimentava “o pasmo essencial”.

Ia todo ano pra lá e vivi um tempo mais longo para aprender o léxico Roseano. Vivia como um capiau e levava sempre no bornal uma caderneta para anotar as frases regionais.  Depois, voltei para Santos, onde meus pais moravam num barraco de madeira infestado de camundongos. Éramos muito pobres.  Meu pai era pedreiro e trabalhava fazendo “bicos” (pequenos trabalhos). Eu era seu servente. Íamos para as obras de bicicleta e eu ia sentado no cano, fingindo que estava dirigindo. Comíamos siri que pegávamos na areia da praia e caranguejo do mangue da ponte dos Barreiros. Nunca vi o Lula por lá… Era a mesma época que ele saiu do Nordeste e veio de pau de arara para Santos.

Aos dezoito anos, decidi estudar Letras – português, inglês e literatura. Resolvi porque Letras e Filosofia eram as mais fáceis de ingressar na Faculdade. Era muito tímido e quase não participava das aulas. Trabalhava em um armazém do porto, saía às cinco horas da madrugada de casa para chegar às sete horas no relógio de ponto. Trabalhava o dia inteiro, ia pra casa tomar banho, andava até o ponto de ônibus do cemitério e ia para a faculdade. Não aguentava de tanta fraqueza e cansaço. Era muito magro, 50 quilos, e, graças a Deus, essa magreza (pau de virar tripa) evocavam a comiseração das pessoas. As meninas da minha sala de aula tinham tanta dó de mim que faziam os trabalhos por mim e incluíam como participante. Pagava a faculdade pintando casas e apartamentos, rodando mimeógrafo, fazendo bicos e reparos em construção civil, tudo com a ajuda de minha mãe, que costurava “para fora” (para o mercado). Meu pai queria que eu fosse um engenheiro civil e, quando decidi fazer Letras, ele jurou que não aportaria um “puto” (centavo) para o custeio do curso. Jurou e cumpriu.

Conclui a faculdade de Letras, aos trancos e barrancos. Não tinha trabalho. Como bacharel em Letras (literatura e idiomas) eu só podia dar aulas nessas matérias e era tímido demais para me expor na frente de uma sala de aula. Mas eu tinha planos grandiosos, possivelmente fantasiosos. Aos doze anos, dizia sempre para minha irmã: “Xulica, vou ser muito rico, mas vou ser muito pobre”. O paradoxo confundia a cabeça da coitadinha. Mas só eu sabia o que ia dentro da minha mente.

Procurei intensamente emprego em São Paulo e Rio de Janeiro como revisor de textos, tradutor, qualquer coisa. Nada. Após um ano de tentativas, voltei para Santos envergonhado e desesperado. Um dos meus amigos me indicou uma empresa de navegação, Rosalinha e procurasse um tal Seu Barone. Tinha acabado de ler na Bíblia, Velho Testamento, a história de um sujeito Josafá que perdeu todas as guerras. Exaurido, Deus falou pra ele que na próxima guerra ele “não teria que fazer nada, mas apenas ver os seus inimigos serem ddeslizetados.” Imbuído dessa força, dessa crença, fui com a carteira de trabalho para essa tal de empresa Rosalinha. Ao chegar, disse para a atendente que queria falar com o gerente geral, Seu Barone. Perguntou-me do que se tratava. Disse apenas que era pessoal. Seu Barone pediu-me que entrasse em sua sala. “Pois não”, perguntou-me. Morrendo de medo, tentei a tática de Josafá: “ Deus mandou-me aqui e disse que é pra eu começar a trabalhar hoje.” Atônito e rindo, perguntou-me: “você sabe inglês e datilografia e bater carimbo e trouxe sua carteira de trabalho.”

“Sim, senhor.” Respondi, prontamente. Então passe no departamento pessoal, deixe sua carteira e comece a trabalhar agora. No começo, como não sabe nada de “shipping”, vai carimbar e levar putas pros comandantes dos navios.” “Perfeitamente, reagi com firmeza e alegria. Foi aí que começou uma exitosa carreira como empresário de transporte marítimo internacional, de funcionário,a corretor,a operador, a dono (armador) de navios, com escritórios de luxo no Brasil e no exterior.Tema pra outra estória.

O mesmo amigo que me convidou para ir à Rosalinha, o William Andrade, me convidou a ir a um culto protestante na igreja Batista. Encantei-me à primeira visita. Havia música alegre, jovens sorridentes, relacionamentos, estudos bíblicos, sociabilização, coisas que nunca tive em minha casa. Vivia em cima de um andaime, estudando e catando caranguejo. Após o culto, levantei a mão, “aceitei a Cristo”, fui à frente do púlpito, fiquei contrito, me arrependi dos meus pecados. Em seguida, me batizaram por imersão e comecei a viver uma nova vida em Cristo. “Se alguém está em Cristo é nova criatura; as coisas velhas já passaram, eis que tudo se fez novo”. Tudo como manda o figurino litúrgico.

Como era catedrático, estudioso, curioso e ambicioso pelo saber, comecei a estudar tudo em torno da teologia: hermenêutica, homilética, exegese, história etc. Criei um jornalzinho para transmitir meus pensamentos: PAZ. Eu escrevia os artigos, editava, rodava no mimeógrafo e distribuía para a congregação. Pela minha dedicação, logo fui promovido para ocupar cargos como presidente da juventude, diácono, presbítero. Virei a menina dos olhos do pastor. Comecei a estudar música e logo tocava guitarra com proficiência e compunha as músicas que a juventude cantava. Fazíamos acampamentos, piqueniques, retiros espirituais. Os jovens se relacionavam com muita intensidade. Tudo era encantador e estimulante. Memoráveis tempos! “Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo…” (G. Rosa)