Uma Nova Era

Comecei a desenvolver projetos sociais de tecnologia de informação com sustentabilidade, me envolvi com a Administração Pública, voltei para a escola de música, comecei a escrever poemas curtinhos com evocações filosófica, a ler inveteradamente Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, a renovar minha paixão literária, a cuidar de jardim, a ficar ocioso, a tomar vinho, a viajar distraído. Virei um generalista. Mas verdadeiro! Virei eu!

Numa de minhas tantas viagens, fui parar no Uruguai, num lugarejo chamado El Pinar, um balneário sem expressão turística, mas para mim era o Jardim do Éden. Um lugar paradisíaco: pinheiros elevados, vizinhos amáveis que tinham o prazer de nos ensinar espanhol, não havia muro entre as casas e todas elas tinham grandes e lindos jardins floridos. Não voltamos mais para o Brasil. Alugamos uma casinha bem pequena, mas com um gramado e um jardim enormes, árvores maduras e pés de laranja. As praias eram desérticas e cheias de dunas. Só havia um restaurante lindo de madeira na confluência do mar e do arroyo (rio). Eu e minha então esposa ficávamos no deck externo admirando o mar e o rio se entrelaçando enquanto recitávamos poesias, depois entrávamos para ficar em frente à lareira quando o frio apertava. Era um prazer inenarrável. Conversávamos com o proprietário Ramon tomando um bom vinho e assim, como diria o poeta Neruda, Confieso que Yo he vivido. (Confesso, eu vivi; ou bebi..)

Nesses anos todos de trabalho, enquanto meus dogmas protestantes iam diminuindo, minha fé, admiração e afeto por Cristo iam aumentando. Lia intensamente os evangelhos, os primeiros livros do Novo Testamento que contam a história da vida de Jesus, mas não me conformava com uma coisa – por que quatro narrativas de sua vida? Uns livros repetiam episódios, outros omitiam, outros contavam episódios diferentes. E não me conformava com aquela linguagem ortodoxa, arcaica, dogmática, religiosa. Era como fazer a homilia com a Vulgata Latina. Ficava imaginando “- Cristo não falava dessa maneira rebuscada!” Ele era um homem simples, carpinteiro (fazia carrinho de madeira), brincava, tinha amigos e quando completou 30 anos assumiu publicamente que era o Deus-Humano. Vivia no meio dos pobres, doentes, iletrados, beberrões e prostitutas, entre aqueles que não sabiam falar bonito e rebuscadamente. E Cristo falava como eles. Nesse sentido, acredito que muita gente deixa de conhecer a vida de Cristo e perde a oportunidade de aprender com ela porque a Bíblia remete ao religioso, ao incompreensível, ao transcendente e necas de imanente. É incompreensível e soa como careta… Ser chamado de “crente” é vexatório, é subestimar a inteligência.

Resolvi então escrever uma narrativa unificada da vida Cristo, tendo como base os quatro evangelhos – Mateus, Marcos, Lucas e João. Deu um trabalho danado colocar primeiro em colunas os episódios que se repetiam em cada evangelho, ordenar os episódios cronologicamente, transcrever expressões da época em linguagem corrente e vernacular (como moeda, horários, costumes judaicos etc.). Foi um trabalho árduo e demorado. Boa parte dos textos elaborei no sossego do Uruguai, em geral ao final do dia até à madrugada. Durante o dia, andava de quadriciclo nas dunas da praia, fazia churrasco (Parilla) e tomava vinho com minha esposa e nos divertíamos como crianças sem rédeas. Não pensávamos em nada e não tínhamos mistérios e nem metafísica. Brincávamos e olhávamos a natureza ao nosso derredor e plantávamos mudas, principalmente beijinhos coloridos (que os uruguaios chamam de “alegria”).