O Encontro

CARTAS DE SÊNECA PARA LÚCIDA

Lúcida e sua rotina
Era o verão de 2016. Cidade de Virginia, Estados Unidos.
Era uma vez uma mocinha franzina e recatada chamada Lúcida. Sua mãe lavava o chão de uma pensão para ajudar a pagar a faculdade. Ela estudava Arquitetura e Design na universidade Virginia Tech, Estados Unidos, no Centro Washington-Alexandria.Morava num quarto pequeno, mas muito confortável, no alojamento da Universidade. Lúcida era calada, tímida, retraída. Não fazia muitos amigos. Seu principal amigo era um rapaz chamado Volodymyr Babii, um designer brilhante, criador do projeto “Heterotopia – espaço livre para uma cidade de ponta”.
Seus passeios solitários eram o de sempre: City Marina e Waterfront Park, um pequeno gramado para quem não tem medo de ser feliz. Ali passa o imponente Rio Potomac. Caminhando alguns minutos se chega na marina onde fica o elegante restaurante de frutos do mar Chart House. Lúcida ficava admirando o restaurante com seus clientes sorridentes. Sem condições para frequentá-lo, se enchia de convicção: um dia ainda venho aqui com meu namorado!
Andava sempre pelo Capitain’s Row: uma quadra de casas geminadas em uma rua um pouco inclinada, pavimentada de pedras. Um encanto de rua, arborizada e com construções muito graciosas e coloridas. A Capitain’s Row fica na Rua Prince St, a Rua da Universidade.
Como cultivava a espiritualidade, ia com frequência à Christ Church: uma linda igreja de tijolos à vista. Lá tinha seu momento diário de meditação.
Lúcida amava literatura e procurava andar distraída como lhe ensinara o poeta camponês português Alberto Caeiro:
Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos!…
Ela tinha o olhar do girassol; por isso, sabia sentir o pasmo essencial diante da beleza miúda que ninguém presta atenção. Recitava de cor:
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás…
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem…
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras…
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo…
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender…
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo…
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar…
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência é não pensar…
Mas era no alojamento que Lúcida passava a maior parte do seu tempo. Estudando, pensando e meditando. Era um prédio branco como a neve. No topo, ostentava uma cruz, indicando que o lugar tem influência cristã. Sem opulência. Um alojamento comum.

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